“Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais forte do que a gratidão,” Anne Frank.
É véspera de natal, o inverno rigoroso pesa sobre uma grande cidade. No húmido e frio porão, tem um menino com mais ou menos seis anos. Este menino está húmido e frio, abrigado com uma espécie de bata, velha e gasta. O ar que sai da sua boca forma uma fumaça branca e, sentado a um canto, sobre um baú, o menino distrai-se, ativando de propósito a sua respiração, divertindo-se a ver o ar a sair mas tem muita fome. Ele aproxima-se já várias vezes da cama de tábuas, coberta com um delgado colchão de palha, onde está deitada a sua mãe, com cabeça apoiada num monte de farrapados a servir de almofada. O menino abraça-a.
Tem alguém que você precisa abraçar?
O garoto pega no seu gorro e sai do porão. Lá fora, a grande cidade, com muitas pessoas, carruagens e claridade. Ele sente a sua pequenez. Ninguém o vê, estão todos muito ocupados. Ele sente muita fome e tem tanto frio que os dedinhos da mão chegam a doer.
Você teria reparado no menino a andar pelas ruas?
Entre tantas coisas, o garoto vê uma janela. Atrás dela, um quarto quentinho e claro, uma árvore de natal com muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, bonecas e cavalinhos. No quarto, as crianças correm. Estão bem vestidas e muito limpas. Brincam, comem e bebem. Mas o pequeno herói chora, pois sente muita fome e frio. Através de outra janela, ele vê mesas com bolos de todas as qualidades: bolos de amêndoa, vermelhos e amarelos.
Já agradeceu comida que não lhe falta?
O menino repara que a porta da rua se abre e pessoas entram e saem com bolos, entregues por quatro senhoras. Lá vai ele inocentemente, com muita fome, tentar a sua sorte. O pequenino foi posto fora de casa, entre gritos e gestos bruscos. Uma senhora ainda lhe deu uma pequena moeda, mas nem isso ele pegou, porque não teve tempo de segurar a moeda.
Não sei se você também fecha o vidro do carro ao ver as crianças no farol. Mas você tem os seus motivos, como as senhoras também tinham.
Este menino, com seis anos, sente-se ameaçado e tem vontade de chorar. O medo que sentiu quando o fizeram correr dali só aumentou a angústia que já o dominava. Ele sente-se tão só e tão abandonado.
Mas eis que ele vê a multidão, que olha para um palco com muita curiosidade. Em cima do palco, há três grandes bonecos. Eles tocam instrumentos e mexem as bocas. O menino percebe que são bonecos e ri divertidamente. Nunca imaginou que algo assim pudesse existir. O riso, no meio da tragédia, revela a alegria pura de uma criança. Nesse momento ele sente que alguém o puxa para trás. Um monstro grande e malvado, que está ao lado dele, sem mais nem menos, bate-lhe na cabeça, fazendo o gorro cair.
O monstro rasteira o menino e ele cai no chão. Algumas pessoas gritam. Ele fica aterrorizado, levanta-se e foge depressa. Correndo com as forças que lhe restam, sem saber para onde, atravessa um portão, entra num pátio e senta-se atrás de um monte de lenha. “Ao menos aqui não me vão encontrar, está muito escuro”, pensou. O no meio de tanto medo, sente repentinamente um grande bem-estar. As mãos já não doem mais, sente calor e apenas deseja conseguir dormir. De repente, aparece a sua mãe a cantar uma canção. Ele diz à mãe, “Mãe, vou dormir”. “Ah como é bom dormir aqui. Vem comigo, vamos ver a árvore de natal”, murmura repentinamente, a mãe, com uma voz cheia de doçura. Ele ainda pensa que é a mãe, mas não é. Uma forte claridade inunda aquele espaço e o menino vê muitos meninos e meninas. Todos estão felizes e a brincar. Enquanto voa, ele vê a sua mãe a sorrir com um ar feliz.
E o pequeno menino diz à sua mãe, “como é bom estar aqui mãe”. Conta-lhe que viu as outras crianças, que se encontram junto da árvore de natal onde também existe um presépio com o menino Jesus. Todos os anos, nesse dia, há uma árvore de natal para os meninos que não tiveram a sua árvore de natal na terra. Então o menino percebe que todos aqueles meninos e meninas foram crianças como ele e tinham morrido. Uns pelo frio, outros abandonados, outros ainda pela fome, até sufocados, mas agora eles eram como anjos, todos juntos a Cristo.
É importante pensarmos como estamos viver a nossa vida. Será que somos escravos do nosso egoísmo? Será que reclamamos mais do que agradecemos? Será que perdemos tempo a refletir? Será que ainda humanidade?
Quantos meninos e meninas como o da história passam por nós durante o ano todo? Pense mais uma vez na frase; “Os mortos recebem mais flores do que os vivos, porque o remorso é mais
forte do que a gratidão”. Convidamos cada um a refletir profundamente, como aprendemos com Sócrates, “uma vida irrefletida não vale apena a ser vivida”.
No fim, as pessoas, no local onde o menino se escondeu, descobriram o corpo do menino, gelado, junto a um monte de lenha. Também foi encontrada a mãe, no quarto húmido e escuro. Ela morreu antes dele. Encontraram-se os dois, no céu, junto ao bom Deus,
Boas Festas! Um Santo Natal!
Escritór : Eduardo da Silva Soares
Estudante do Instituto Superior de Filosofia e de Teologia Dom Jaime Garcia Goulart, Fatumeta




